A felicidade, a pele e o espelho, as três faces enrugadas da nossa existência.*..

 * Palestra proferida na aula inaugural do Colégio Gonçalves Dias


Gilvaldo Quinzeiro



1 – È com muito prazer que ouso-me a falar para vocês neste primeiro dia de aula, do ano de 2012, um ano que por tudo que se tem falado, é de grande expectativa e grandes mudanças, de um tema que deste o nascimento do homem tem estado presente nos discursos dos lideres tribais e imperadores; nas reflexões teológicas e filosóficas; mas, sobretudo, na luta diária do homem comum, isto é, o tema da felicidade.

2- A felicidade, não tenhamos duvidas, é o motivo pelo qual nos encontramos aqui neste espaço chamado escola, não obstante, os conteúdos específicos de algumas disciplinas, não fazer a felicidade qualquer referencia, todavia, o que buscamos aqui é sim, sermos felizes!

3 – Pois bem, dito isso inicialmente, eis que surge uma questão inevitável: onde então se encontra esta tal felicidade que desde os primórdios dos tempos os homens têm derramado seu sangue e suor correndo atrás dela?

4 – Bem, esta mesma pergunta os sábios da filosofia grega, como Sócrates, Platão, Aristóteles e tantos outros; e até santos como São Tomás de Aquino e Santo Agostinho – se debruçaram sobre ela dando as suas respostas possíveis, conforme se pensava na época e no seu contexto, e assim sendo, eu vou recorrer uma metáfora poética e filosófica, e com ela vou me arriscar também a responde-la, lhes dizendo o seguinte: A felicidade está à nossa pele, pois, que outra lugar estaria tão ao nosso alcance?

5 - Dizer que a felicidade está à nossa pele, é pois, afirmar que esta não só está ao nosso alcance, como também é da nossa inteira responsabilidade cuidar no sentido de que sejamos felizes, tal como da pele se cuida para que aos olhos dos outros parecermos mais bonitos! Dizer que a felicidade está à nossa pele é, em certo sentido, “democratizar a felicidade”, ou seja, qualquer seja a cor da nossa pele, se preta, se branca, se vermelha ou amarela, podemos e devemos ser felizes!

6 – Entretanto, caros alunos e caros colegas professores, nós, enquanto seres humanos, não somos feitos só de pele, e nem a nossa vida se resume na nossa aparência, ou seja, somos uma natureza, e como uma natureza somos muito profundos e complexos do que temos consciência dela!

7 – Ora, nesta altura alguém pode estar se perguntando, então isso quer dizer que de alguma forma nós somos desconhecidos para nós mesmos? Exatamente isso!

8 – Esta foi uma das mais chocantes das descobertas já feita pelo homem, tal descoberta foi realizada pelo Dr. Sigmund Freud, nas primeiras décadas do século XX, trata-se, pois, do inconsciente. Ou seja, nós somos capazes de lembrar e falar de um sonho dito na noite passada, por exemplo, todavia, o seu significado nos é completamente desconhecido.

9 – Conhecer a si mesmo, eis o maior de todos os nossos desafios e a mais importante de todas as lições. Mas, a importância de conhecermos a nós mesmos, nasceu com Sócrates, e não com Freud, no século V, antes de Cristo, na Grécia antiga.

10 – Neste ínterim, alguém poderá se perguntar: uai, e a felicidade? Eis que eu respondo com uma outra pergunta: como exigir da prerrogativa de sermos felizes, se de nós não nos damos conta?

11 – Pois bem, até agora estamos falando de nós, enquanto individuo, e mesmo, enquanto indivíduo, ainda não foi falado que, em nossa natureza há algo ainda mais complexo que se chama de alma; outros chamam de espírito, mente, emoção ou subjetividade. Isto significa dizer que, precisamos cuidar da alma, assim, como cuidamos da nossa pele. Isto significa dizer que, se nós só cuidarmos da parte superficial da nossa natureza, esquecendo de cuidar do que há de nós na nossa profundidade, podemos ate vir a dar gargalhada, mas, certamente não vamos estar sabendo por quê? Ou de quem ou do quê estamos rindo?

12 – Ora, se tudo se resumisse ao que somos em nossa individualidade, entendendo esta individualidade a partir da pele, e adentrando a profundidade da nossa alma, ainda que, repito, nós a desconhecêssemos , seria menos complicado, se se em nossa individualidade não dependêssemos do outro.

12 - Ah, o Outro! Sempre o outro.... Tudo é o outro...Tudo é para o outro. É aqui que começa a nossa fala sobre o espelho. E a iniciaremos dizendo o seguinte: o espelho do espelho do nosso espelho são os olhos do outro.

13 – Porém, antes de nos aprofundarmos nesta questão, uma coisa precisa ser dita: todos nós somos feitos das e nas entranhas do outro. Em outras palavras, há em nós, um outro, que é inerente a nossa natureza, de sorte que, só nos tornamos indivíduos, com personalidade própria, com pele própria, à medida que do outro nos desvencilharmos .

14 – Lembrem-se caros alunos e caros colegas professores, que o nosso nascimento se dar simbolicamente e de fato, quando do corte do cordão umbilical, ou seja, quando da separação do outro que é a nossa mãe.

15 – Em outras palavras, ao nascermos para nós mesmos, somos lançados numa realidade tão ameaçadora que, sem a ajuda do outro, em poucas horas estaríamos mortos.

16 - Mas, voltando a falar do espelho, e entendendo este espelho psicanaliticamente falando, como sendo o outro, a primeira idéia de imagem que vemos e que temos é da nossa mãe, ou seja, vemos a imagem da nossa mãe como sendo, num primeiro momento, como a nossa própria, e só depois com o passar do tempo é que vamos fazer a distinção.

17 – Em outras palavras, nós somos tão dependente do outro que para construirmos a nossa própria imagem, dependemos da imagem do outro.

18 – Quando duas crianças brincam, e de repente uma se machuca e chora, em seguida,a outra que não se machucou também passar a chorar, sabem por que? Por que a imagem da outra se confunde a com a sua própria, ou seja, a criança ainda não construiu a idéia de alteridade.

19 – Quantos de nós não estamos assumindo as dores dos outros como sendo as nossas? Quantos de nós não estamos assumindo os problemas alheios como sendo os nossos? Quantas mães estão vivendo a vida de suas filhas, como se fosse a dela própria?

20 - Em outras palavras, falar do outro na condição de nosso espelho é falar daquilo que também não só pode ser ilusório, mas, fantasmagórico...

21 – Pois bem, falar do espelho é tocar numa questão que também nos é inevitável, tal questão é o do desejo. Para o renomado o psicanalista francês Jacques Lacan, o nosso desejo é ser o desejo do desejo do outro.

22 – Ora, caros alunos e caros professores, querer se colocar na condição de vir a ser o desejo do desejo do outro, é correr o risco ter o espelho estraçalhado. È aqui onde mora a nossa desilusão. É aqui onde moram as frustrações e todas as nossas perdas, e com certeza, os motivos dos nossos enrugamentos precoces!... E contra isso não há remédio, a não ser o remédio da maturidade.

23 – E a maturidade não é outra coisa, senão o amor próprio. Portanto, caros alunos e caros professores, antes de desejar o amor do outro por nós, temos que conquistar o amor de nós por nós mesmos!

24 – Em outras palavras, jamais estaremos de bem com os outros, se não estivermos antes conosco. Jamais mereceremos o amor do outro por nós, se antes não tivermos este amor por nós!...

25 – Ora, como é possível saber que pelo outro estamos sendo de fato amados, senão na condição de termos amor a nós mesmos?

26 - Pois bem, já estamos chegando ao final da nossa palestra, e alguém poderá estar se perguntando, e afinal o que é mesmo esta felicidade?

27 – Respondo –lhes afirmando o seguinte: a felicidade é a nossa decisão de, quando estraçalhados diante do espelho que nos nega ver, criar um espelho próprio e com o qual acolher a nossa imagem que aos olhos dos outros só tinha defeitos. E para ser mais enfático: precisamos ser o escultor da nossa própria alma; precisamos nos recriar e nos redesenhar, quando tudo em nossa volta for só escombro!

28 – Precisamos ter a inspiração e a disposição de um Arquimedes, quando disse que para erguer o mundo só lhe faltava uma alavanca!

28 – Precisamos primar pela perfeição artística de um Leonardo Da Vinci cuja Monalisa a todos nos olha e nos encanta com sorriso enigmático!

29 – Precisamos sonhar alto como os um Santos Dumont que, mesmo sendo desacreditado pelos homens de seu tempo, ainda assim se tornou o pai da aviação!

30 – Precisamos ler e nos inspirar nos poemas do patrono desta escola, poeta Antônio Gonçalves que nos escreveu o seguinte: a vida é combate que os fracos abates e que os bravos e fortes só têm a exaltar!

31 -Em suma: Não há como ser feliz sem a intenção de sê-lo.

32 – Sejam todos mais felizes, nos esforço de se conhecerem e de se tornarem para si mesmo uma melhor companhia!

Muito obrigado!

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