O mal-estar na civilização: a perda diária do controle dos esfíncteres
Por Gilvaldo Quinzeiro Quisera eu não ter que recorrer a um jargão psicanalítico para constatar que perdemos o controle dos esfíncteres. Contudo, ignorar Freud em tempos em que o pensamento crítico tanto faz falta seria esquecer sua célebre carta a Albert Einstein, escrita em 1932, quando a civilização ocidental ainda recolhia os escombros da Primeira Guerra e já flertava com a catástrofe seguinte. Naquela correspondência sobre a propensão humana à destruição, Freud foi implacável: "O senhor se admira de ser tão fácil incitar os homens à guerra e presume que neles haja algo atuante, um instinto de ódio e de destruição, que favorece esse atiçamento. [...] Apenas confirmamos a sua opinião. Acreditamos na existência de tal instinto e, nos últimos anos, ocupamo-nos em estudar as suas manifestações." Sim, perdemos a contenção. Reconhecer esse descontrole é indispensável quando o debate recai sobre o dilema perene: civilização ou barbárie. As complexas condições do mundo conte...