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Carta dos bichos aos líderes mundiais na Assembleia Geral da ONU

Por Gilvaldo Quinzeiro Vossas Excelências, Se reuníssemos os filhotes de todas as espécies em um mesmo berço primordial, o instinto básico da fome despertaria em cada um deles uma voracidade cega pela sobrevivência. Entre todas as crias, apenas uma levaria o polegar à boca como gesto solitário de desamparo: o filhote humano. Ironicamente, nenhum outro animal, por mais faminto ou feroz que seja, seria capaz de aniquilar o próprio ninho. Apenas a vossa espécie desenvolveu a capacidade — e a deliberada inclinação — de devorar o próprio berço que a sustenta. E resta a dúvida que ecoa pela biosfera: seria essa mesma espécie capaz de salvar todas as outras? Essa parábola sobre a fragilidade biológica e a soberba civilizatória dos homens ganha contornos de urgência absoluta às vésperas de mais uma sessão da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU). Em Nova York, dezenas de chefes de Estado e de governo — entre eles o presidente do Brasil — subirão à tribuna para discursar sobre...

Em Tempos de Roupas Sujas: 8 Dicas de Ditergentes aos Ministros do Supremo Tribunal Federal na Sessão de Hoje

Por Gilvaldo Quinzeiro 1.​O problema da lavagem: O dilema de se lavar tanta roupa suja em praça pública não reside na quantidade de sabão ou detergente consumida, mas na conveniência de terem escolhido justamente a sessão de hoje para fazê-lo. Por que hoje? 2.​A régua moral: Sob a ótica da sabedoria popular, quando o sujo resolve acusar o mal lavado diante das câmeras, confirma-se apenas uma verdade incômoda: todos conviveram muito bem durante muito tempo com mesma sujeira. 3.​A vergonha compartilhada: A tragédia da degradação institucional produz uma espantosa simetria: tornamo-nos rigorosamente iguais no constrangimento e no desconforto de termos de olhar uns nos olhos dos outros. 4.​A nudez por trás do tecido: A toga de um magistrado muitas vezes tenta impedir que o público o condene pela nudez escandalosa de seus atos; no fundo, isso só expõe o quanto nós, espectadores, continuamos vestidos com a nossa própria e disfarçada hipocrisia. 5.​O circo institucional: O espetáculo grotesco...

A Antologia da Nossa Crise em Tempos de Muito Baile na Corte

Por Gilvaldo Quinzeiro  ​Que me perdoem os arautos da moral ilibada e os “terrivelmente evangélicos”, mas até eles sabem exatamente onde o sapato aperta — e onde o calcanhar de Aquiles vira tornozeleira imaginária. ​Ao cair o sigilo dos autos do caso Master, qualquer desavisado esperava encontrar os suspeitos de sempre. Contudo, em vão se procuraria ali a digital de um trabalhador braçal ou a sombra de um morador de rua. Não há proletários nessa foto. O retrato cobiçado ontem — e hoje tratado como mancha radioativa — é um inventário estrito da nossa aristocracia do andar de cima. Trata-se da seleta casta que frequenta os mesmos bistrôs faiscantes, desfila pelos mesmos corredores de mármore importado e compartilha as poltronas de couro do mesmo jatinho executivo. ​Freud explicaria sem pestanejar: sob a ilusão neurótica de onipotência, essa elite acreditou ter superado a própria fisiologia. Esqueceram-se de que a pulsão não escolhe CEP e que, no fim do dia, a biologia é implacavelmen...

geopolítica em chamas: entre o sonambulismo social e a sombra de um conflito global

Por Gilvaldo Quinzeiro  Enquanto a Terra chacoalha sob nossos pés — com o registro de cerca de oito sismos de magnitude igual ou superior a 7 na escala Richter entre fevereiro e julho deste ano —, no campo da disputa geopolítica a diplomacia vai sendo soterrada. Na América Latina, países vizinhos como Argentina e Brasil sofrem fraturas expostas em suas relações diplomáticas devido ao distanciamento ideológico entre seus governantes. Isso para não citar as históricas e profundas tensões em outras regiões do globo. ​Por outro lado, dois conflitos de grande escala — a Guerra da Ucrânia e as crescentes hostilidades no Oriente Médio (envolvendo o Irã, Israel e a aliança com os EUA) —, embora distantes geograficamente, convergem no redesenho da nova ordem mundial. Essas crises rompem fronteiras e passam a se influenciar mutuamente. Seria o espectro de uma Terceira Guerra Mundial se configurando a cada dia? ​Para diversos analistas, esses conflitos vêm sendo utilizados como "balões de en...

Que nos venha o luto, mas não a melancolia!

  Por Gilvaldo Quinzeiro A derrota da Seleção Brasileira por 2 a 1 para a Noruega, no último domingo, não pode ser vista apenas como um acidente tático. Ela é, sobretudo, o sintoma psíquico-social de algo maior e mais complexo. Afinal, jogamos ou não com os pés atados pelo peso da pressão externa? Refiro-me ao asco oriundo da nossa polarização eleitoral, que transformou o campo em palanque, de sorte que a vitória ou a derrota seriam instrumentalizadas por diferentes bandeiras políticas. Aliás, diga-se de passagem, o circo já estava montado, com palhaços e malabaristas prontos para celebrar qualquer resultado — inclusive o do não pertencimento à pátria. Diante disso, cabe a provocação: terá sido melhor a derrota? Ganhar o tão sonhado hexacampeonato em uma competição esportiva que ficou conhecida como a “Copa da Vergonha” significaria tudo, exceto ter participado de uma Copa do Mundo genuína. Especialmente quando o resultado simbólico e a soberania do jogo parecem subordinados a orde...

A consagração dos novos bispos “católicos” em Écône: a aranha e a mosca em disputa pela teia civilizatória?

Por Gilvaldo Quinzeiro No teatro das grandes instituições, o dia de hoje, 1º de julho, em Écône, Suiça, não marca apenas um evento de dissidência religiosa; marca o instante exato em que o fio de uma teia milenar se rompeu de forma irreversível. A consagração dos quatro novos bispos da Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX), realizada à revelia da severa carta de advertência do Papa Leão XIV — datada de 29 de junho, na festa de São Pedro e São Paulo —, é mais do que um ato de desobediência eclesiástica. É o sintoma visível de uma crise na própria arquitetura do que entendemos por civilização.  Durante séculos, operamos sob a premissa de que as grandes instituições religiosas, em particular, a igreja católica apostólica romana, são as "aranhas civilizatórias". Ou seja, elas tecem a ordem, delimitam as fronteiras do sagrado e estabelecem as leis que mantêm a coesão social. A teia é o casulo que nos protege do caos. No entanto, o que testemunhamos hoje é a inversão trágica de...

A ditadura do algoritmo e o derretimento da espiritualidade? Crise de fé ou de moeda?

  Por Gilvaldo Quinzeiro O que significa hoje o imperativo "Dai a César o que é de César", se a sociedade inteira capitulou e se rendeu ao próprio mercado como divindade absoluta? O que passa a ser a soberania diante do avanço avassalador dos interesses transnacionais? E, afinal, o que é ser patriota quando pertencer a uma pátria se tornou um mero obstáculo nas discussões e nos interesses privados de uma família? Pois bem, assim como no passado a fé se transformou na moeda que se transmutou em espada nas mãos de conquistadores sanguinários como Hernán Cortés e Francisco Pizarro, hoje, em tempos de criptomoedas, bancos digitais e a farra desenfreada das apostas virtuais, a fé virou a farinha algorítmica.  Coaches apontam em suas  falas em tonalidades  artificiais, os atalhos para se chegar mais rápidos aos céus –é o tempo de preces fáceis e apressadas; de gente de joelhos apenas enquanto se posta para uma foto. E nestas condições,  erguem-se templos prósperos de ...