O carnaval como tradição é terapia. Mas como uma outra coisa: é heresia



Por Gilvaldo Quinzeiro


O carnaval sem a sua liturgia, qual seja, o rei momo, as tradicionais marchinhas, as fantasias, e sobretudo, a alegria e a irreverência do povo, não é carnaval. É uma outra e perigosa coisa, sem a proteção da tradição.  Uma outra e perigosa coisa, que, sem o manto da fantasia tradicional, é simplesmente carne em exposição no açougue!


 O que se vê hoje, por exemplo, naquilo que apenas leva o nome de carnaval, são gastos milionários para se   armar palco para apresentações de bandas e atrações também milionárias, porém, que nada têm a ver com a festa momesca. Uma heresia, digamos assim!


Uma tradição, por ser tradição, vai além do modismo; de mal gosto inclusive, como contratar paredões, com música cujas letras arrancam-nos o tampo de tão grossa que são, mas passam longe da poesia e estética carnavalesca – o que é uma monstruosidade! Como se não bastasse, ainda aparece o prefeito fazendo gracinhas, que é tudo, menos uma caricatura típica do carnaval!


Carl Gustav Jung, já nos chamava atenção do perigo da perda da importância do simbolismo, fato este marcado pela entrada da sociedade na modernidade. Ora, os símbolos funcionam como um anteparo, inclusive, na prevenção da loucura! Na Grécia Antiga, as festas dionisíacas, das quais se originaram o carnaval de rua, eram uma espécie de catarse em resposta às tragédias!


Personagens como Pierrot, Colombina e Arlequim cumprem o seu papel fantásistico no carnaval, o que de outra forma, pode ser repetido como sintomas no mundo real. O feminicídio, a nossa febre de hoje, pode ser um destes sintomas, qual seja, da falta de realização do processo catártico, que poderia ser feito no carnaval.


O carnaval, hoje, portanto, como uma festa pública, e com muito dinheiro público investido, perdeu a função  da sua condição terapêutica de válvula de escape, logo, o que prevalece é a repetição da tragédia cotidiana!


Amém ?

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