A ditadura do algoritmo e o derretimento da espiritualidade? Crise de fé ou de moeda?
Por Gilvaldo Quinzeiro
O que significa hoje o imperativo "Dai a César o que é de César", se a sociedade inteira capitulou e se rendeu ao próprio mercado como divindade absoluta? O que passa a ser a soberania diante do avanço avassalador dos interesses transnacionais? E, afinal, o que é ser patriota quando pertencer a uma pátria se tornou um mero obstáculo nas discussões e nos interesses privados de uma família?
Pois bem, assim como no passado a fé se transformou na moeda que se transmutou em espada nas mãos de conquistadores sanguinários como Hernán Cortés e Francisco Pizarro, hoje, em tempos de criptomoedas, bancos digitais e a farra desenfreada das apostas virtuais, a fé virou a farinha algorítmica. Coaches apontam em suas falas em tonalidades artificiais, os atalhos para se chegar mais rápidos aos céus –é o tempo de preces fáceis e apressadas; de gente de joelhos apenas enquanto se posta para uma foto. E nestas condições, erguem-se templos prósperos de gente endividada em apostas — apostas que, na ilusão dos fiéis, se premiadas fossem, até poderiam render um dízimo maior. Essa abstração matemática tem sido o verdadeiro motor que rege os novos impérios dos CEOs, dos coaches de finanças e daqueles que ousam se autodenominar, erroneamente, pastores, quando na verdade agem como autênticos mercadores da fé.
Pois bem, um dos segredos de quase tudo na vida repousa na moeda. Mas não na moeda sob a ótica rasa dos bestsellers de autoajuda financeira, como os manuais de Napoleon Hill — que se tornaram a verdadeira Bíblia de uma era vazia. Refiro-me à moeda em seu sentido arquetípico: uma entidade que sintetiza a existência simultânea de dois mundos, constituída por dois lados indissociáveis (o material e o espiritual, o visível e o invisível).
Era sob essa visão mística que os Incas enxergavam o Sol, compreendendo o seu imperador como o próprio sol terreno, o espelho da divindade na matéria. E quanto ao ouro Inca? Bem, o ouro que antes havia aos montes e em lugares públicos, pois não possuía nenhum valor monetário, este acabou derretido, profanado e enviado para adornar os altares das igrejas espanholas — com a mesma pressa e as mesmas preces coloniais que abriram feridas profundas nas mãos andinas que antes o ostentavam como algo sagrado.
Casos recentes, como as investigações da Polícia Federal que apontam possíveis fraudes financeiras envolvendo o Banco Digimais, ligado ao bispo Edir Macedo, são emblemáticos. Revelam que a chamada "Teologia da Prosperidade" não prospera sem o pragmatismo de mãos humanas que assalta o bolso dos mais incautos. Enquanto o balcão de negócios desses templos opera a pleno vapor, as mãos de Deus, verdadeiramente, ficam cada vez mais distantes e inacessíveis da nossa realidade. Mas não é só isso: a transformação do púlpito em palanques e de pastores em tóxicos cabos eleitorais. Algo errado com isso Arnaldo?
Enquanto muitos ainda se perguntam, e as respostas vêm minguadas, há o esvaziamento visível dos templos, como possível consequência disto! Amém?
E o dinheiro? A tese central que emerge desse cenário é que toda crise na substância do dinheiro é, na realidade, uma crise na substância da verdade e da autoridade. O dinheiro é energia, porém, convertida em isca na sua versão material. De sorte que quando o suporte físico do valor muda — deixando de ser o ouro extraído da terra ou o papel chancelado pelo Estado para virar um pulso eletromagnético numa tela —, a ordem mundial desmorona e se reorganiza. A moeda se transforma em “drones” em guerras de narrativas contra a soberania das nações, enquanto os arautos da fé ditam as ordens de quem deverá entrar na nova arca de Noé!
Portanto, olhar para a moeda além do seu valor de troca — enxergá-la como um símbolo arquetípico — nos revela como a humanidade tendeu a materializar o espiritual e, eventualmente, a profanar o sagrado em nome do controle. O controle das almas , diga-se de passagem –, aquilo que diante das inteligências artificiais, eu venho chamando de hackeamento dos cérebros. O hackeamento dos cérebros eis a verdadeira disputa no âmbito da geopolítica mundial.
Quem afinal se salvará no mundo regido pela égide das pós-verdades e da fé que precisa cada vez mais do uso da força física dos bombardeios ?
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