A Antologia da Nossa Crise em Tempos de Muito Baile na Corte
Por Gilvaldo Quinzeiro
Que me perdoem os arautos da moral ilibada e os “terrivelmente evangélicos”, mas até eles sabem exatamente onde o sapato aperta — e onde o calcanhar de Aquiles vira tornozeleira imaginária.
Ao cair o sigilo dos autos do caso Master, qualquer desavisado esperava encontrar os suspeitos de sempre. Contudo, em vão se procuraria ali a digital de um trabalhador braçal ou a sombra de um morador de rua. Não há proletários nessa foto. O retrato cobiçado ontem — e hoje tratado como mancha radioativa — é um inventário estrito da nossa aristocracia do andar de cima. Trata-se da seleta casta que frequenta os mesmos bistrôs faiscantes, desfila pelos mesmos corredores de mármore importado e compartilha as poltronas de couro do mesmo jatinho executivo.
Freud explicaria sem pestanejar: sob a ilusão neurótica de onipotência, essa elite acreditou ter superado a própria fisiologia. Esqueceram-se de que a pulsão não escolhe CEP e que, no fim do dia, a biologia é implacavelmente democrática. O que a República agora testemunha, pasma e constrangida, é a constatação da fase anal mal resolvida do poder: mãos atoladas na lama fecal daqueles que agora precisam de bochechos com água benta antes do próximo banquete.
Afinal, qual família burguesa nunca sonhou em embalar no berço um futuro ministro do Olimpo togado? E que mortal, seduzido pelo princípio do prazer, recusaria o milagre edênico de ter as faturas do cartão de crédito quitadas por um mecenas invisível? O drama surge quando o encanto quebra. Como na festa da Bela Adormecida, ninguém quer ser a bruxa esquecida no convite — mas, quando a carruagem vira abóbora e o cheiro azeda, ninguém admite sequer ter pisado no salão.
O espetáculo tem o rigor cênico do Baile da Ilha Fiscal de 1889. Naquela noite, a corte dançava valsas febris enquanto a República batia à porta com botas de cano longo. A nossa versão contemporânea tem a mesma afetação kitsch, trocando o veludo imperial por ternos sob medida e fantasias de astronauta socialite, enquanto os bastidores da política maquinam o próximo golpe de cena.
Na antessala do pleito decisivo, essa oligarquia puxa as últimas descargas com desespero mitológico, tentando afogar os próprios dejetos antes que o esgoto transborde e inunde o tapete persa.
Amém?
Comentários
Postar um comentário