A consagração dos novos bispos “católicos” em Écône: a aranha e a mosca em disputa pela teia civilizatória?


Por Gilvaldo Quinzeiro

No teatro das grandes instituições, o dia de hoje, 1º de julho, em Écône, Suiça, não marca apenas um evento de dissidência religiosa; marca o instante exato em que o fio de uma teia milenar se rompeu de forma irreversível. A consagração dos quatro novos bispos da Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX), realizada à revelia da severa carta de advertência do Papa Leão XIV — datada de 29 de junho, na festa de São Pedro e São Paulo —, é mais do que um ato de desobediência eclesiástica. É o sintoma visível de uma crise na própria arquitetura do que entendemos por civilização. 

Durante séculos, operamos sob a premissa de que as grandes instituições religiosas, em particular, a igreja católica apostólica romana, são as "aranhas civilizatórias". Ou seja, elas tecem a ordem, delimitam as fronteiras do sagrado e estabelecem as leis que mantêm a coesão social. A teia é o casulo que nos protege do caos. No entanto, o que testemunhamos hoje é a inversão trágica dessa dinâmica. A aranha foi capturada pela “mosca”?

A "mosca" — a força outrora contida pela estrutura — descobriu a fragilidade intrínseca desse tecido. Ao ignorar o decreto romano, os herdeiros do arcebispo francês Dom Marcel Lefebvre — que em 1988 já havia desafiado o Vaticano em ato idêntico — demonstraram que as amarras institucionais perderam sua tração biológica. Tornaram-se linhas imaginárias. 

Em sua advertência, o Papa Leão XIV agiu como o tecelão que tenta resgatar a integridade da rede, exortando a Fraternidade a não consumar o que chamou de "ato cismático" e a preservar a unidade visível do Corpo Místico. Mas a resposta enviada ontem, 30 de junho, pelo atual Superior Geral da FSSPX, Dom Davide Pagliarani, revela o nó cego em que a própria aranha se meteu. No documento, Pagliarani argumenta em um tom paradoxal de respeito e firmeza: 

"Desejamos, pelo contrário, servir à Igreja por meios que são extraordinários, como quem assistiria uma mãe em angústia que requer particular ajuda, mesmo se tal ajuda não é compreendida por todos." 

Nessa justificativa, a aranha civilizatória aparece enrolada na própria teia. Para a FSSPX, a burocracia e as reformas modernas de Roma são os fios que estão sufocando a fé; logo, rasgar um pedaço dessa teia (sagrar bispos sem o mandato papal) torna-se, na mente deles, o único modo de salvar o que resta do tecido original. É a desobediência justificada como a forma mais pura de fidelidade? 

Quando Dom Davide Pagliarani procede ao ato de hoje, ignorando o ultimato de Roma, a revelação que se exporta para o mundo vai além da teologia: é a de que o poder simbólico das instituições faliu. O centro já não consegue reter a periferia porque está ocupado demais tentando se desvencilhar dos nós que ele mesmo atou ao longo dos séculos. 

Se até as estruturas mais arcaicas e consolidadas do Ocidente revelam que seus fios estão frouxos e que seus tecelões perderam o controle da trama, resta-nos olhar para o chão da história e perguntar: o que sustenta o homem quando a teia se desfaz e a aranha se descobre, afinal, tão vulnerável quanto a sua presa? Eis mais um terremoto duplo acontecendo, desta feita, no tecido civilizatório cujo epicentro é coração do mundo religioso?

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