Que nos venha o luto, mas não a melancolia!
Por Gilvaldo Quinzeiro
A derrota da Seleção Brasileira por 2 a 1 para a Noruega, no último domingo, não pode ser vista apenas como um acidente tático. Ela é, sobretudo, o sintoma psíquico-social de algo maior e mais complexo. Afinal, jogamos ou não com os pés atados pelo peso da pressão externa? Refiro-me ao asco oriundo da nossa polarização eleitoral, que transformou o campo em palanque, de sorte que a vitória ou a derrota seriam instrumentalizadas por diferentes bandeiras políticas.
Aliás, diga-se de passagem, o circo já estava montado, com palhaços e malabaristas prontos para celebrar qualquer resultado — inclusive o do não pertencimento à pátria. Diante disso, cabe a provocação: terá sido melhor a derrota?
Ganhar o tão sonhado hexacampeonato em uma competição esportiva que ficou conhecida como a “Copa da Vergonha” significaria tudo, exceto ter participado de uma Copa do Mundo genuína. Especialmente quando o resultado simbólico e a soberania do jogo parecem subordinados a ordens que ecoam de fora dos gramados. Donald Trump não apenas interveio na reversão do cartão vermelho dado a um de seus atletas, como fez questão de esnobar o feito publicamente. Diante de tamanha soberba, imperadores como Júlio César ou Nero pareceriam modestos em uma vitrine de comparação. Uma Copa do Mundo desprovida de fair play é o escancaramento de que o espírito da disputa colonialista e das guerras finalmente tomou de assalto os estádios.
Esse cenário chama a atenção para as reais condições do mundo atual, mas, acima de tudo, para as nossas próprias fraquezas e fraturas internas. Um país que não consegue se unir nem em tempo de Copa do Mundo projeta sobre os seus atletas a dúvida e a ambiguidade na hora do jogo jogado. Rompe-se o pacto coletivo da torcida. Além disso, uma Copa sem a tradicional transmissão pelas emissoras de rádio já despertava, por si só, um certo estado de luto pela perda de nossa identidade cultural e afetiva com o futebol.
Evocando a psicologia profunda, Freud nos ensina que o luto é a reação saudável à perda de um objeto amado, um processo doloroso, mas necessário para a reconstrução do eu; já a melancolia é a fixação patológica na perda, onde o próprio ego se esvazia e se destrói. Que venha, portanto, a dor da perda e que entremos em luto, mas jamais nos entreguemos ao sentimento patológico da melancolia crônica! Um time — ou um povo — que perde sem extrair sentido da derrota vive na ilusão neurótica de ser um vencedor. A luz que não passou pela escuridão é superficial, desprovida de substância. Será que ainda não aprendemos com o fatídico 7 a 1 e que o colapso estrutural não se cura com maquiagem?
Por fim, se as regras esportivas e a paixão pelo futebol foram substituídas pelo capricho de um novo imperador global, resta-nos buscar inspiração na resiliência e na dignidade dos antigos gladiadores. A vitória na arena, antes de tudo, era uma lição sobre a própria finitude. O gladiador entrava no combate consciente da fragilidade da sua existência, sabendo que o triunfo de hoje não lhe garantiria sair vivo na batalha de amanhã. É essa consciência trágica, e não a submissão cega, que nos devolve a soberania sobre o nosso próprio destino.
Que assim seja?
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