O dia D das eleições: o eleitor diante da esfinge

 

Por Gilvaldo Quinzeiro 


Querendo ou não, sabendo ou não, o instante se impõe: hoje é o ato; amanhã, o seu reflexo.


A urna não encerra apenas uma disputa retórica entre o lado A e o lado B. Ela se ergue como a própria Esfinge na encruzilhada da pólis, confrontando-nos com o enigma incontornável da nossa convivência: quem é o teu próximo? Quem és tu depois que a cabine se esvazia? O que verdadeiramente conheces de ti mesmo? Por quem, afinal, arrastaste teus passos cansados até aqui? Decifra-me ou devoro-te — o imperativo mítico agora repousa sobre a ponta dos nossos dedos.


O escrutínio contemporâneo nos cerca com as vertigens do nosso tempo. Interroga-nos sobre a voracidade da inteligência artificial e a preservação do que há de humano; sobre as fronteiras da soberania em um planeta em convulsão; sobre o colapso climático e as névoas conspiratórias que asfixiam a lucidez. Em meio a tantas miragens digitais, uma inquietação basilar resiste: o que resta de concreto e tangível em um mundo que perdeu o vínculo com a calçada, com o vizinho, com a esquina real onde se compra o pão?


Contudo, a gravidade do voto não habita o éter da pura abstração, tampouco a espuma rasa das redes sociais. Ela pulsa na carne crua do cotidiano. Este dia sela tanto o destino dos povos da floresta quanto a labuta silenciosa de quem acorda no escuro para sustentar a casa. Toda grande questão metafísica deságua, inevitavelmente, no prato sobre a mesa, no preço do remédio e no ar que se respira. Afinal, nem só de discurso vive o homem.


A polarização despida de reflexão não passa de miopia barulhenta: precisamos deliberar com a sola dos pés no chão, atentos aos abalos sísmicos que sacodem a vida comum. Haverá trabalho digno? Haverá transporte, segurança nas ruas, teto para quem não tem? Saúde para todos? 


Pensar com profundidade não é adorno intelectual; é urgência ética. O voto não é um mero rito burocrático de preferências descartáveis, mas um gesto irrevogável de responsabilidade histórica. Ao confirmar a escolha na urna, colocamo-nos diante do nosso próprio espelho — não daquele que apenas reflete a vaidade das certezas fáceis, mas daquele que testemunha o suor diário de quem luta para garantir o feijão com arroz.

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