Postagens

Pérolas às onças

Por Gilvaldo Quinzeiro Estranho o tempo em que os peixes antes livres em águas claras e fundas, hoje são porcos em poças escuras e rasas a mendigarem   doses cavalares   de rações – razões dos nossos sujos   interesses que   transformam   tudo em vasilha limpas – onde se come cada vez mais pouco do que verdadeiramente nos   sustenta! Estranho o tempo de muitas fendas e poucos céus   – razão pela qual muitos profetas são   prisioneiros do que anunciam –   tsunami de suas   vaidades! Estranho o tempo em que muitos   se afogam na mesma água , que não enche um copo , mas se arrogam de detentores de poderes de abrirem caminhos por entre os mares! Estranho o tempo onde o bem   muda de endereço tão facilmente para se tornar inquilino dos dedos sujos , que apontam o mal tão bem e para todos os lados! Estranho o tempo onde a pressa dita a prece para se obter   apressadas bênçãos, que se diluem facilmente nas   pesa...

Os engenhos de si mesmo e o lado de fora

Por Gilvaldo Quinzeiro  O olhar para dentro de si é raiz! Não há, neste momento de tempestade, uma mão sequer do lado de fora! A força, a segurança e o amparo estão dentro de nós! O olhar para dentro de si é conexão com o universo!  Erga-te por ti mesmo! Faça deste momento suas lições! Não se torne mais estranho e nem inimigo de si mesmo! As condições atuais exigem sobretudo, o silêncio interior e a escuta profunda acerca do que somos!  É verdade, entretanto, que há muito tempo deixamos para trás a humanidade. Por isso somos árvores sem raízes a construir desesperadamente edifícios e templos, que não se sustentam por si mesmos, haja vista serem estes o lado de fora!  O lado de fora é a superficial retórica acerca do que as palavras já não mais alcançam. O lado de fora é o discurso falso e cheio de ódio. O lado de fora é a justificativa sem fundamento e a culpa como escapatória. Eis do que estamos farto!  Volte para dentro de si! Faça-te companhia!

A pandemia e o retorno à caverna? Uma introdução a psicanálise cabocla

Por Gilvaldo Quinzeiro   Nos meus primeiros escritos, quando eu era bem jovem (ainda não publicados, e talvez perdidos em algum lugar da minha bagunça); escritos estes que eu intitulei de o ‘retorno à caverna’, e, olhando para os acontecimentos de hoje, em tempo de pandemia, mas, particularmente no que diz respeito ao comportamento assombroso das pessoas, penso que em certo sentido, tais escritos são atuais. O texto abaixo é um esforço para colocar lenha entre as trempes no interior das nossas escuras cavernas!   As emoções são arcaicas armas disparadas pelo corpo antes mesmo do uso das primeiras ferramentas; do uso das palavras e da razão na luta pela sobrevivência, ou seja, em um contexto em que a comida poderia significar também matar ou morrer pelos mesmos motivos, bastando para isso só se colocar um pé fora da caverna.   Em outras palavras, no nosso passado remoto, uma simples busca por água poderia resultar em que ficássemos enterrados na lama na disputa...

A velhice e a morte: mãos e pés no mesmo caminho?

   Por Gilvaldo Quinzeiro   É difícil lançar um olhar nas bordas da nossa realidade, sem nos sentirmos meros fiapos de uma costura mal sucedida, assim como um remendo em tecido puído! Como diriam os mais velhos: “em tecidos puídos não se prega remendo”. Ocorre, entretanto, que este entendimento nos dias de hoje com seus tecidos líquidos, não cola: há um desabamento do discernimento nas novas e nas velhas gerações para, as quais, tudo é músculos. Em tempo de ufanismo cinzento, é bom que se diga, república dos músculos! Bem, a realidade é parente das coisas mais brutais. Algumas destas coisas só nos batem à porta na velhice: momento em que nem pelados estamos livres do peso dos nossos olhos!   Sim. A velhice nos arranca tudo – ao mesmo tempo em que nos acolhe?   A velhice, meu caro, nos coloca vizinhos de tantas e tantas coisas indesejáveis, entre esta aquela que não desejo nem pra mim: a morte! Eu fico a imaginar como os idosos em tempo pandemia estão...

Quão somos feios, primo!

Por Gilvaldo Quinzeiro A pandemia, que hoje no Brasil já ultrapassou 250 mil mortos escancara o que temos de pior e feio (ainda bem?): algo que encheriam os olhos apenas de uma plateia composta só por     insetos! Que me perdoe os insetos por essa feia comparação com aquilo que há de verdadeiramente mais assustador neste momento – o próprio homem! O feio ou pior aqui não é apenas em relação ao número de mortos, que a cada dia aumenta, e sem surpresa, mas sobretudo no que diz respeito a rapidez com que fechamos os olhos para isso, e continuamos nos achando bonitos e merecedores da graça de Deus! O dito aqui não é no sentido de fazermos escandalosas e chorosas procissões pelas perdas, mas acordarmos para o fato de que menos mortes ocorreriam se se nos protegêssemos... Ir bonito a uma aglomeração pode resultar na feiura dos caixões empilhados e sem velórios... Sim, é estranho como de todas as espécies somos únicos a acreditar que somos bonitos! O narcisismo é o centro dis...

Na minha análise política: há muito mais ódio pela fé do que pelo bem do Brasil

  Por Gilvaldo Quinzeiro   O problema de qualquer cruzada contra o mal, seja esta travada nos tempos medievais ou nas ‘luzes’ dos nossos tempos, não consiste necessariamente no mal em si a ser combatido, mas na fragilidade das raízes que nos fazem acreditar que estamos fincados no bem. Neste sentido será em vão convencer uma multidão já nas ruas, e no meio desta, muitos dos nossos bons e bem intencionados amigos, de que não estamos travando uma batalha de natureza apocalíptica. Sim, já está em curso uma batalha apocalíptica! Muitas mentes estão seriamente alteradas, e, nestas condições, a ‘besta’ pode ser vista em todas as faces, exceto nos olhos de quem cegamente a ver.     Em outras palavras, não só os ares do nosso tempo exalam o cheiro de enxofre, bem como não há nada no chão da nossa luta diária que não esteja também impregnado por este teor apocalíptico. Enganam-se, pois, os mais sérios analistas políticos da atualidade se se em suas análises a re...

O novo normal e velha xícara de café

Por Gilvaldo Quinzeiro Não há como pensar o novo normal sem inserir neste o frágil habitat de cada um, que será a uma espécie de bolha ilusória, sob o qual estaremos todos inflados pelo ódio; pela soberba; pelo medo e pela solidão ao mesmo tempo em que lutaremos para conter a respiração para evitar a sua eclosão. Nestas condições, um simples ato de tomar café não ocorrerá sem que a leve fumaça que emerge da xácara se transforme numa figura fantasmagórica! Parafraseando    um velho ditado, no novo normal é preciso que se mantenha um olho aceso na xícara e o outro já apagado na fumaça! “A solidão de amigos”, lembrando aqui da melodia do saudoso cantor e compositor Jessé, é fruto dessa guerra fraticida e estomacal; guerra essa que só daremos conta dos seus reais estragos da mesma forma que Pirro, ou seja, sem que tenha sobrado ninguém para comemorar! Voltando a xícara de café. O velho quadro exposto há muito tempo na parede, haverá de ter mais sobre nós do que o simples...