O caso Itumbiara: quando Tânatos se envergonha de Eros?


Por Gilvaldo Quinzeiro


O caso de Itumbiara, no qual, o marido depois da constatação da traição da sua esposa, e como resposta, matou os dois filhos e em seguida veio matar a si também,  é, para começo de conversa, uma tragédia nossa! Não é, pois, uma tragédia restrita ao âmbito da família enlutada. Ela pertence a todos nós, e cabe a nós refletirmos e aprendermos sobre ela!


Pois bem, é tendência humana evitar a tensão, a fruição, a vergonha, o sofrimento, a dor, isto é, o desprazer.  A evitarmos isso, no entanto, estamos retornando ao útero da pedra, mãe de toda a humanidade, quando a humanidade sequer pensava ser batizada por este estranho nome! Porém, não há como fazer isso sem que não se esteja flertando direto e perigosamente com a morte.


 Viver, é, portanto, estar exposto a todo tipo de ridículos vexames, até aqueles ridículos vexames em nome do mais puro amor; porém, nestes ridículos vexames, está o melhor, que a vida em seu longo e sofrido processo evolutivo pode nos oferecer: suas duras e pedregosas lições!


 O que é então mais fácil: morrer ou viver diante de ridículos vexames? Seja lá qual for a sua resposta, uma coisa é certa, eis Tânatos e Eros frente a frente dançando aquele que pode ser, por nossa decisão, o último baile!


Ora, falar das implicações de Tânatos e Eros, conquanto sejam estas forças esmagadoras, é falar do mundo das ideias e das abstrações. E assim sendo, não se pode, pois, resolver tais equações no âmbito físico (da pedra), dos músculos ou da lei do machado.


Por mais duro que seja o golpe, e é duro pra porra! É preciso se operar as respostas no âmbito da abstração – doa a quem doer!


Em outras palavras, o corpo é o cavalo de todos os nossos sintomas, sejam estes físicos de rachar; sejam estes emocionais de nos fazer vazar a própria alma.  Montar este cavalo acuado, é tarefa para o Senhor Cavaleiro, dono das suas próprias sombras – aquelas que poderão lhe derrubar do cavalo a qualquer momento – que vexame!


Voltando a pedra. A pedra, essa senhora, que criou por atritos as nossas mãos; as nossas mãos, estas duas senhoras, que formam pares de opostos, e que na luta para salvar a si mesmas, acabam sem saber, protegendo o Senhor Cérebro – essa indefesa massa cinzenta que se não fossem as mãos, teria o mesmo destino do caracol dentro da concha!


Pois bem, antes da palavra nomear a coisa (a palavra veio substituir o murro), a mão sobre a coisa ou sobre a pedra, uma vez que a pedra bruta significava todas as coisas, era o gesto humanamente possível. Por isso ter a mão sobre a coisa significava controlar o mundo, incluindo aquele mundo que se rastejava quase ao alcance da boca.


Por fim, Itumbiara chora, é claro que chora! Mas quem de fato chora por quem? Eros se expôs para proteger Tânatos ou Tânatos ainda vive e de forma ostensiva exatamente por nunca  ter se constituído em  par de opostos, assim como as mãos para proteger o cérebro?

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