Carta dos bichos aos líderes mundiais na Assembleia Geral da ONU


Por Gilvaldo Quinzeiro


Vossas Excelências,


Se reuníssemos os filhotes de todas as espécies em um mesmo berço primordial, o instinto básico da fome despertaria em cada um deles uma voracidade cega pela sobrevivência. Entre todas as crias, apenas uma levaria o polegar à boca como gesto solitário de desamparo: o filhote humano. Ironicamente, nenhum outro animal, por mais faminto ou feroz que seja, seria capaz de aniquilar o próprio ninho. Apenas a vossa espécie desenvolveu a capacidade — e a deliberada inclinação — de devorar o próprio berço que a sustenta. E resta a dúvida que ecoa pela biosfera: seria essa mesma espécie capaz de salvar todas as outras?


Essa parábola sobre a fragilidade biológica e a soberba civilizatória dos homens ganha contornos de urgência absoluta às vésperas de mais uma sessão da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU). Em Nova York, dezenas de chefes de Estado e de governo — entre eles o presidente do Brasil — subirão à tribuna para discursar sobre emergências climáticas, transição energética e paz global. Contudo, o tempo presente não aceita mais tergiversações. A encruzilhada é irreversível, tal como no filme Senhor Ninguém: uma vez expelida no ar, a fumaça jamais regressa ao interior do cigarro. Não são apenas as geleiras que estão a derreter, mas também a oportunidade histórica de os homens estenderem e apertarem as mãos.


O temor de uma Terceira Guerra Mundial deixou de ser retórica alarmista de ficção para se converter em variável friamente calculada nos gabinetes estratégicos. Relatórios e alertas emitidos nos corredores da própria ONU já apontam a escalada militar global como a mais catastrófica das ameaças contemporâneas.


O aspecto mais sombrio dessa marcha insana não reside apenas no alcance cirúrgico dos mísseis ou no fantasma dos arsenais nucleares, mas no retorno impune de táticas de barbárie que a civilização pretendia haver superado. Sob o manto asséptico das declarações diplomáticas, consolidou-se uma pauta oculta e perversa: o uso deliberado da fome como método de guerra. O cerco implacável a civis, o bloqueio logístico à ajuda humanitária e a terra arrasada de lavouras e fontes de água tornaram-se expedientes rotineiros de combate, tolerados pelo cinismo e pela paralisia dos fóruns multilaterais.


Enquanto os governantes disputam palmo a palmo quem cederá primeiro na corrida pela hegemonia — invertendo a sabedoria ancestral e sacrificando os próprios dedos para salvar os anéis do poder —, do chão da terra, os insetos e as aves observam o delírio humano. Se pudessem interpelar vossas tribunas, perguntariam com espanto: que destino resta aos homens se destruírem o fio que sustenta as teias das aranhas ou se derrubarem o último galho onde pousa o ninho dos pássaros?


Por fim, não é porque as tartarugas chegam sempre devagar aos encontros dos homens que a humanidade tem o direito de trocar a paciência e a consciência viva pelo frenesi cego de um mundo acelerado pelas inteligências artificiais. O tempo da terra é o tempo do pulso e da respiração. Antes que o berço se incendeie de vez, aprendam com os bichos a respeitar o chão que vos alimenta.

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