Minha Nossa Senhora, que eleição!


​Por Gilvaldo Quinzeiro

​Salve Rainha!

​Essa história de mudar a padroeira do Brasil não vem de hoje nem está atrelada unicamente ao calendário eleitoral: trata-se de algo muito mais profundo, antigo e visceral. É um desejo reprimido de certos segmentos que, vira e mexe, transborda para a arena pública. Basta resgatar os vídeos e registros em que líderes religiosos quebram imagens sacras católicas — isso sem falar nos violentos e reiterados ataques aos terreiros e templos de matriz africana.

​Testemunhamos esse fenômeno de perto em Caxias há pouco tempo. O tema ganhou as ruas não apenas em forma de burburinho, mas materializado em uma espécie de “marcha”. Refiro-me à proposta capitaneada por Fábio Gentil, então prefeito da cidade, de erguer um monumento com uma imagem católica no Morro do Alecrim. O projeto só esfriou quando o pragmatismo político falou mais alto e a classe dirigente calculou o peso do eleitorado em disputa na balança eleitoral.

​Pois bem. Ao contrário do que a miopia política insiste em crer, o pleito que se avizinha não representa apenas mais uma rodada periódica para a escolha de presidente, governadores, senadores e deputados federais e estaduais. Longe de ser mais um pleito trivial desde a proclamação da República, em 1889, vivemos os contornos de uma guerra híbrida em escala continental. E, como toda guerra dessa natureza, ela opera por meio de múltiplos vetores: da interferência estrangeira evidente à instrumentalização da fé, passando por fetiches ideológicos há muito represados.

​O que está em disputa não é apenas a alternância de poder que se repete a cada quatro anos, mas um embate simultaneamente escatológico e epistemológico. O próprio tecido da realidade parece estar em jogo: a depender de quem vencer, decreta-se-a se a Terra é redonda ou plana, se a ciência é guia ou pecado, se o passado deve ser lembrado ou reescrito. Há nessa encruzilhada algo que extrapola o contingente: é um confronto civilizatório, antológico e definidor entre o delírio e a razão, entre o dogma subjetivo e o mundo objetivo.


Portanto,  o voto de domingo é não é só para quem se considere portador de um título eleitoral, e sim para quem se colocar na condição de parteiro(a).


Que o arquétipo vencedor seja aquele no qual todos se sintam seus(as) filhos(as)!

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