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A FILOSOFIA CABOCLA, RISCAR O CHÃO.

                      Gilvaldo Quinzeiro O caboclo quando risca o chão está pensando. Aliás, no caboclês ou no nheengatu se diz matutar. Riscar, pois, o chão com a ponta dos dedos, significa manipular com as mãos o abstrato, ou seja, pensar usando a “cabeça dos dedos”, termo bem apropriado para a filosofia cabocla. Diga-se de passagem, que a “filosofia cabocla” é única que tem explicação para tudo, do contrário o que seria o viver destes homens? “Quem não pode com a” rudia não pega no bote” - diz assertiva cabocla. Besta é quem pensa que matuto não vive de matutar! Aliás, nas condições enfrentadas pelo caboclo, o pensamento que não corresponde à praticidade, é o mesmo que riscar o chão com o dedo para depois ter o risco apagado pelo vento, o que levou em seguida o caboclo a fazer uso de um graveto para, não obstante as intempéries continuar o seu pensar, isto é, riscando o ch...

NAS VÍCERAS DO MEDO

                                                                  Gilvaldo Quinzeiro Num mundo com seu “final” marcado, onde os mais convictos ou apressados já se antecipam a ele, entrar nas vísceras do medo que nos faz todos reféns significa colocar a engrenagem da “roda da existência humana” para girar, não obstante o toque das sinfonias fúnebres a se propagar. Pois, bem, no tempo em que as crianças brincavam de roda no meio do terreiro e os rapazes e moças “passavam fogo” ante a fogueira de São João, o único medo que castigava a todos, era o de se deparar com o lobisomem nas noites de quinta-feira. Tal era o medo que até se ouvir falar do bicho se perdia o fô...

O DESEJO, A PALAVRA E O OVO FRITO.

Gilvaldo Quinzeiro O desejo é como uma folha flutuando sobre a correnteza de um rio – a força que a movimenta é também a mesma que a afoga na descida do desfiladeiro.O desejo também Pode ser comparado à cauda de um cometa, isto é, quando da a sua vastidão é sinal de que está se desintegrando ao passar próximo ao sol. Ou seja, o desejo não se sustenta por si, e quando “realizado” o é somente na condição de ter ascendido ao âmbito das palavras, e, portanto, da sua “não-realização” enquanto um vulcão emergido da escuridão do corpo. Se as palavras são escoadouros ainda que como substituto do desejo, então estas agem em relação a estes como frigideiras cujos ovos só são comidos depois de mortos. Os desejos, portanto, quando ascendidos à condição de palavras, não são mais do que “ovos fritos”, isto é, do ato de desejar ate culminar com sua “realização” ter-se-á percorrido um longo caminho, e tal como ovos na frigideira resultam em perdas substanciais. Dito de outro modo, “gozar” é se ...

ATRAVESSANDO OS DESERTOS

Gilvaldo Quinzeiro Quem nunca encarou seus desertos, certamente também encontrará dificuldades de se desatolar de seus pântanos. Além disso, não ousou quebrar a lâmpada cujo gênio degusta as tâmaras a espera de um pedido. Está apressado? O que fará de si se o que lhe espera são seus próprios fantasmas? Eis uma dica de quem já estancou o sangue se valendo apenas de uma mão cheia de areia: 1 – Dance contigo a dança que só com os outros a desejou dançar! Eis o que lhe manterá acalentado, quando no alto das árvores os abutres já lhe disputam com olhares! 2 - Mantenha ao alcance da mão, o que de longe apenas se contempla! 3 - Contemple ao longe, como também se contempla as estrelas – o que se tem ao alcance na palma da mão. 4 – Lembre-se que quando nos tornamos “Alexandre, O Grande” estamos apenas conquistando o mundo para dar de presente a uma criança humilhada, maltratada e ferida que trazemos no peito. 5 - Se formos apenas o que aprendemos a ser, certamente o que não somos, consti...

AS TRÊS FACES DE EVA E A MONALISA DE DA VINCI

Gilvaldo Quinzeiro Tal como numa obra de Leonardo Da Vinci que misturou várias faces na face de Monalisa, tornando-a tão bela quanto enigmática, a mulher é por assim dizer, uma equação cuja resposta ainda está por vi. Nem Freud, um profundo estudioso da mente humana, mas enfim, um sem-útero como eu, conseguiu dar por desvendado a natureza feminina. Mas como compreender a mulher sem ser mulher, ou seja, de um ponto de vista puramentemente masculino? Certamente a temática feminina é requer a união de dois gênios em área distinta, o da escuridão da mente humana, Freud e o da pintura renascentista, Da Vinci. Do primeiro, tomaríamos emprestado a sua escuta, a escuta do silencio feminino; do segundo, a visão, a visão para além das curvas que nos prende e limita atenção. Feito esta fusão, “despintaríamos” a face de Monalisa para fazer renascer numa interpretação lacaniana as três faces nas quais estão divididas a mulher ocidental, a saber, a face de Eva, a face de Maria...

A FELICIDADE

Gilvaldo Quinzeiro Qualquer que seja o caminho pelo qual se busca a “felicidade” se chegará em frente ao “espelho”, onde se perceberá em quantos “pedaços” cada um se fez para está no lugar do outro que também acreditou estar “inteiro” se espelhando em nós. Os cães quando diante de um osso também se olham, e os que não conseguem morde-lo salivam tanto que incomodam a refeição dos outros resultando em brigas que os estraçalham. Com os homens diante do “espelho” acontece à mesma coisa, a diferença é que a imagem refletida não reflete a imagem que se gostaria que os outros tivessem de nós. Com efeito, a “felicidade” se despedaça e a auto-imagem de cada um nos faz sentir como o cão que acabou de perder o osso aos olhos do outro. No final da caminhada será mais “feliz” quem tiver conseguido se erguer dos “pedaços” para encarar ante o “espelho” a sua própria imagem. Este por sua vez terá realizado a “travessia do espelho” e chegado enfim nalgum lugar dentro si. De sorte que qualquer ...

A ESCRITA

Gilvaldo Quinzeiro Se eu não me tomar como fonte de leitura, como compreenderia as outras escritas das quais não sou eu autor? Se Freud para criar a Psicanálise teve que se fundar em si mesmo como fonte de leitura, isto é, na “coisa freudiana”, como nós outros poetas, artistas, pensadores, bêbados poderemos prescindir da escrita que borra em nós sem que a compreendamos primeiro? De que escrita se está tratando aqui? A resposta é: da “coisa” se rastejando dentro de nós tal como uma serpente à espreita do rato! A escrita da qual estamos tratando é filha da mesma árvore que fez brotar da cabeça de Isaac Newton a lei da gravidade ou da de Freud que concebeu o inconsciente isto é, da árvore da intuição, e como tal é sim empirista. Ou seja, estamos falando da escuta da “coisa” que antecede o ato de escrever. É também esta escrita que lambeu o instante em que Albert Einstein colocou a língua pra fora para borrar a cara do mundo! Assim sendo, torna-se, imperiosa a escuta atenta das vozes ...