A Antologia da Nossa Crise em Tempos de Muito Baile na Corte
Por Gilvaldo Quinzeiro Que me perdoem os arautos da moral ilibada e os “terrivelmente evangélicos”, mas até eles sabem exatamente onde o sapato aperta — e onde o calcanhar de Aquiles vira tornozeleira imaginária. Ao cair o sigilo dos autos do caso Master, qualquer desavisado esperava encontrar os suspeitos de sempre. Contudo, em vão se procuraria ali a digital de um trabalhador braçal ou a sombra de um morador de rua. Não há proletários nessa foto. O retrato cobiçado ontem — e hoje tratado como mancha radioativa — é um inventário estrito da nossa aristocracia do andar de cima. Trata-se da seleta casta que frequenta os mesmos bistrôs faiscantes, desfila pelos mesmos corredores de mármore importado e compartilha as poltronas de couro do mesmo jatinho executivo. Freud explicaria sem pestanejar: sob a ilusão neurótica de onipotência, essa elite acreditou ter superado a própria fisiologia. Esqueceram-se de que a pulsão não escolhe CEP e que, no fim do dia, a biologia é implacavelmen...