Sacos de memórias...

Gilvaldo Quinzeiro



Das lembranças do sertão, do tempo em que arroz verde era torrado na panela e depois socado no pilão, uma das mais vívidas é a de “Seu Abelo” (Abel por batismo, e “Abelo” consagrado por nós, meninos do buchão) . Véspera da Semana Santa, lembro-me como se fosse hoje, “semana caçadeira”, diga-se, Seu Abelo se tocava há mais de 36 km a pé pra Caxias para comprar o “jejum” como ele chamava – sardinha, cebola, alho, bacalhau (raramente), café, açúcar e outras coias... Seu retorno era uma festa: um saco de algodão amarrado estilo “cunhão de bode”, um bocado de coisa a cada nó!... Um cheiro das coisas da cidade ia ficando pelos caminhos por onde passava!...

A meninada se reunia em torno de Seu Abelo, e ele começava a contar as novidades: “fui lá no galpão (antigo mercado central), e comprei uma besteirinhas!... Ta tudo caro”! E assim a conversa ia se arrastando vagarosamente noite adentro...

Mas, quando o assunto era de lobisomem... Ai tudo que era menino se espalhava por toda a casa, de preferência onde a luz da lamparina alcançava – quem era doido de ficar no escuro? Todavia, era exatamente neste assunto que Seu Abelo tirava de letra: era o único a não temer o tal bicho, pois, possuía uma arma infalível: “uma taca ou chiquerador”!

E assim, a meninada ia chegando mais perto do velho, enquanto ele (Seu Abelo) “lá vai e lá vem.. o bicho cá e o bicho lá”... E nós ó  de mutuca!

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