Pular para o conteúdo principal

A ‘capacidade de odiar’ – que diabo é isso?


Por Gilvaldo Quinzeiro


Muito se fala do ‘amor’ e da importância de se amar etc e tal. Porém, por mais paradoxal que seja, amar sem se dá conta de que antes é preciso lidar com a condição de ódio latente, é fechar os olhos para aquilo que é inerente a natureza humana.

Vamos falar então da ‘capacidade de odiar’, ou seja, da capacidade de suportar o ódio em si mesmo, e de evoluir a partir deste –, coisa que pouca gente sabe, e por isso, a qualquer sinal, se desmancha.

O ódio, ao menos em manifestação aparente é anterior ao amor, assim como antes da fala, o bebê encrava os dentes na própria língua.

Exigir ‘amor’ de uma criança, isso acontece muito com os pais, e não lhe dar amparo, quando o que lhe abunda é o ‘ódio’, é tornar a cobra viva, sem cabeça, e antropomorfizar o pau, que ainda lhe machuca o rabo.

Portanto, o bebê humano não se tornará   ‘adulto’ se as condições para isso não lhe forem asseguradas, entre estas, o de ser amado pela mãe, apesar de o bebê lhe ferir os seios.

Nestas condições, a mãe que chamar uma criança de ‘diabo’, por exemplo, estará dando   ‘olhos’ àquilo que até então permanecia cego.

O ódio é cego até se dar nome a ele. Depois disso ele ganha corpo e atitude. Pobre criança ao se debater com o próprio monstro antes mesmo de aprender a lidar com as sombras.

Amar não é uma condição que por si só nos livra do ódio, assim como a semente lançada em úmido solo, não estará livre de sofrer com aridez futura da terra.

Amar, portanto, exige uma ressignificação de todo ódio latente. Para isso, no entanto, é preciso que se atinja um estágio, que se chama de evolução.

Amar de verdade, exige enfrentar um longo processo evolutivo cujo ponto inicial consiste exatamente no ódio.

Amar de qualquer jeito é apenas um gesto aparente tal como o de tatuar o corpo com o nome da pessoa amada; o problema é ter que arrancá-lo com o tampo da pele, quando o ‘amor’ ceder lugar ao ódio!

Enfim, sem causar vexame, mas já causando, amar só é possível tornando a pior parte de nós, melhor!



Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A roda grande passando pela pequena

Gilvaldo Quinzeiro


No imaginário caboclo, desde a fundação de Canudos no sertão da Bahia (1893-1897), onde a seca e a fome fizeram da “fé” a enxada que escavava a solidariedade de um povo sem chão, o mito “da roda grande passando por dentro da pequena” foi sem dúvida nenhuma uma das mais engenhosas invenções da saga de Canudos.

A idéia de que uma “ roda grande passará por dentro de uma pequena,” é simplesmente assustadora e instigadora de uma reflexão. Seria esta passagem correspondente ao fim do mundo? Que roda grande é essa? Quem viverá para presenciar tal profecia?

O fato é que ainda hoje este mito sobrevive no imaginário nordestino, sobretudo no meio rural provocando apreensão e “matuteza”. Canudos ainda resistem?

Pois bem, às vésperas das eleições, o cenário montado, onde cabos eleitorais empunhando bandeiras e distribuindo “santinhos” dos candidatos, chamando atenção do povo - é de uma natureza tal que inspiraria um cordelista a escrever versos numa visão apocalíptica adver…

A FILOSOFIA CABOCLA, RISCAR O CHÃO.

Gilvaldo Quinzeiro

O caboclo quando risca o chão está pensando. Aliás, no caboclês ou no nheengatu se diz matutar. Riscar, pois, o chão com a ponta dos dedos, significa manipular com as mãos o abstrato, ou seja, pensar usando a “cabeça dos dedos”, termo bem apropriado para a filosofia cabocla. Diga-se de passagem, que a “filosofia cabocla” é única que tem explicação para tudo, do contrário o que seria o viver destes homens? “Quem não pode com a” rudia não pega no bote” - diz assertiva cabocla.
Besta é quem pensa que matuto não vive de matutar! Aliás, nas condições enfrentadas pelo caboclo, o pensamento que não corresponde à praticidade, é o mesmo que riscar o chão com o dedo para depois ter o risco apagado pelo vento, o que levou em seguida o caboclo a fazer uso de um graveto para, não obstante as intempéries continuar o seu pensar, isto é, riscando o chão.
Riscar o chão com o graveto em substituição aos dedos, não só significou apenas deixar marcas humanas mais pr…

Metáfora da natureza

A natureza....

quando ouvida no mais profundo do nosso silêncio...

nos dá ouvido

nos enraizando os sentidos... que dialoga quando se dá atenção....

nos fazendo ver além... o belo...