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A depressão e nosso estilo de vida ‘urubu’


Por Gilvaldo Quinzeiro


Nos tempos atuais, se de ‘atuais’ pode-se   referir  aos tempos, a depressão, infelizmente, é aquilo que nos contemporiza, isto é, é um dos traços através do quais, podemos chamar de pertencimento a este tempo, de sorte que de outra forma, seríamos atemporais. A depressão, este mal, que nos torna todos iguais, ao menos na desgraça, não é alheia, é ‘o lado de dentro de nós’ atirado aos urubus!

Veja que ‘porra’ de introdução dá ‘cara’ a este texto!
  
Estes ‘urubus’ não são outros, senão o nosso estilo de vida, no qual nos afundamos, muitas vezes apenas para salvar as aparências. Aliás, pobres aparências, que não sobrevivem um ‘beliscão’.

Se repararmos bem, desperdiça-se uma vida inteira apenas em ‘aparência’; seja esta aparência na vida profissional, conjugal, sexual, ‘religiosa’, social ou onde quer mais que seja. Por trás desta aparência, entretanto, está um gigantesco esforço para se evitar as ‘perdas reais’ e por conseguinte angústia decorrente desta.

Em outras palavras, a nossa vida tem sido um angustiar-se por antecipação!

Pois bem, por falar em angústia, em depressão, e outras coisas que tais, nos remete necessariamente ao seu lado oposto, se é que a estas pode haver oposição – ou seja, a libido e seus vários desdobramentos!

Na Inglaterra, por exemplo, segundo uma pesquisa, as mulheres estão preferindo chocolate, em vez de sexo! Ora, por trás disso está a ideia de doçura ou pelo menos um esforço para se adocicar a vida. Há quem prefira apenas a ‘exposição do corpo’, para, em seguida, ocultá-lo quando o assunto é comprometimento, em especial, no que diz respeito a vida a dois.

Não é nenhuma novidade que muita gente está levando para suas casas aqueles ‘manequins de lojas’ para com estes saciar sua fome do outro – o outro, que também tem fome –, o erro, porém, é ignorar que aqueles podem facilmente se quebrar com um simples aperto! Eis o quanto tão frágil se tornou a vida!  

Fora isso, a depressão como resultado de todo este medo de viver, de dar-se e de enfrentar, é ‘lucrativa’, isto é, atende aos interesses mercadológicos, em especial da indústria farmacêutica, estética, cinematográfica, entre outras.

E assim, cada vez mais assistimos o ‘culto a depressão’ e por vezes apologia à morte – os jovens sabem exatamente do que eu estou falando – que pena!


Portanto, viver é urgentemente o agora, em que pese isso se constituir na contemplação da última folha caída; morrer é não se está presente dentro de si. Então, se esta afirmação for verdadeira, eu pessoalmente acredito que sim, há neste exato momento um velório em massa de uma multidão que acredita ser feliz do ‘lado de fora’ – distante de onde deveria estar a sua alma!

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