Pular para o conteúdo principal

O amor, as outras coisas e sua alquimia


Por Gilvaldo Quinzeiro


Três coisas formam sempre uma ‘trempe’.  Feito isso o quarto elemento é o fogo. E com este estão criadas as improváveis condições, incluindo daquele, que criou asas por ter sabido manipular o fogo, bem como estas improváveis condições.  Eis o mistério imanente a todas as coisas!

Saber que “um dia é da caça, e o outro, do caçador”, é manter o fogo aceso entre as trempes, todos os dias, apesar das incertezas presentes em toda as caçadas.

No amor também é assim, ou seja, é preciso conhecer e respeitar suas ‘leis’. Uma delas consiste em não se atirar com a própria flecha, e nem cair ferido por não ter atingido o alvo. Em outras palavras, não se deve ir ao pote com muita sede!

O amor é como um velho retrato, que, depois de tanto tempo esquecido na parede é preciso ter a humildade para se reconhecer nele. O amor é uma daquelas coisas já dentro de nós, e que só a abraçamos quando encontrada fora.

Um grande amor’, esta é uma das nossas incansáveis buscas! Ao menos nesta busca somos todos ‘amantes’. Às vezes até o encontramos, mas ‘cegos’ por tanta procura, não o reconhecemos

Por fim, há que se saber lidar também com ‘o engenho da culpa’. Esta é trempe cujo fogo pode transformar tudo em ‘cachaça’: o amor sofrido, mas que nunca termina porque fizemos deste, a única bebida para uma vida inteira de sede!

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A roda grande passando pela pequena

Gilvaldo Quinzeiro


No imaginário caboclo, desde a fundação de Canudos no sertão da Bahia (1893-1897), onde a seca e a fome fizeram da “fé” a enxada que escavava a solidariedade de um povo sem chão, o mito “da roda grande passando por dentro da pequena” foi sem dúvida nenhuma uma das mais engenhosas invenções da saga de Canudos.

A idéia de que uma “ roda grande passará por dentro de uma pequena,” é simplesmente assustadora e instigadora de uma reflexão. Seria esta passagem correspondente ao fim do mundo? Que roda grande é essa? Quem viverá para presenciar tal profecia?

O fato é que ainda hoje este mito sobrevive no imaginário nordestino, sobretudo no meio rural provocando apreensão e “matuteza”. Canudos ainda resistem?

Pois bem, às vésperas das eleições, o cenário montado, onde cabos eleitorais empunhando bandeiras e distribuindo “santinhos” dos candidatos, chamando atenção do povo - é de uma natureza tal que inspiraria um cordelista a escrever versos numa visão apocalíptica adver…

A FILOSOFIA CABOCLA, RISCAR O CHÃO.

Gilvaldo Quinzeiro

O caboclo quando risca o chão está pensando. Aliás, no caboclês ou no nheengatu se diz matutar. Riscar, pois, o chão com a ponta dos dedos, significa manipular com as mãos o abstrato, ou seja, pensar usando a “cabeça dos dedos”, termo bem apropriado para a filosofia cabocla. Diga-se de passagem, que a “filosofia cabocla” é única que tem explicação para tudo, do contrário o que seria o viver destes homens? “Quem não pode com a” rudia não pega no bote” - diz assertiva cabocla.
Besta é quem pensa que matuto não vive de matutar! Aliás, nas condições enfrentadas pelo caboclo, o pensamento que não corresponde à praticidade, é o mesmo que riscar o chão com o dedo para depois ter o risco apagado pelo vento, o que levou em seguida o caboclo a fazer uso de um graveto para, não obstante as intempéries continuar o seu pensar, isto é, riscando o chão.
Riscar o chão com o graveto em substituição aos dedos, não só significou apenas deixar marcas humanas mais pr…

Medicina cabocla

Gilvaldo Quinzeiro





Coceira nenhuma é igual a do “gugumim”, pra esta não tem água morna, quente ou fria: só o gargarejo de “malva do reino”!


Noite adentro, quando se escutava o pilãozinho sendo socado, era menino precisando passar por alguma esfregação, seja com azeite de mamona ensopado num algodão, seja com um dente de alho esquentado nas chamas de uma lamparina!


Nos casos mais graves de dor de barriga, se recorria ao sarro de cachimbo passado em cruz. E ai do menino metido à besta que se recusasse tal procedimento da medicina cabocla  – o cinturão estava já bem às vistas!...

O máximo que se poderia dizer era: mamãe!...