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Eu conto do Natal, na voz do caboclo

Gilvaldo Quinzeiro



O nascimento



Era uma vez, numa noite escura e fria na distante cidade de Belém, enquanto os homens dormiam, apenas os animais assistiam o nascimento de um rei.



O trabalho de parto, realizado sem as mínimas condições foi feito milagrosamente pela parteira mucura que, como recompensa de Nossa Senhora recebeu a graça de não sentir a dor de parir, uma vez que seus filhotes se desenvolvem numa bolsa pelo lado de fora. E assim nas primeiras horas da madrugada do dia 25 de dezembro:



O galo: - Jesus Cristo nasceu!


A vaca: - a onde?


A ovelha: - em Belém!


Enquanto isso, os outros animais não satisfeitos com o acontecimento põem em ação um plano macabro.


O pato: Esfola! Esfola!


O capote: Traz a faca! Traz a faca!


O peru: Logo, logo! Logo, logo!


Portanto, o que era uma festa para uns, tornou-se numa ameaça para outros. O rei Herodes que naquela mesma noite tivera um pesadelo é acordado pela algazarra feito pelos bichos. E imediatamente grita seus soldados para matar toda e qualquer criança do sexo masculino que nascera naquela noite.

A Sagrada Família, , José, Maria e Jesus estava correndo sério perigo. Caso permanecesse no mesmo local onde nascera Jesus seria facilmente descoberto pelos sanguinários soldados de Herodes. A solução é fuga para outro país – o Egito.



A fuga para o Egito

 
Às pressas para o Egito, seguindo atalhos e enfrentando perigos, mais uma vez a Sagrada Família foi assistida pelos animais. Estes por sua vez, não mediram esforços para ajudar o menino Jesus, nosso senhor. Cada animal prestou ajuda conforme as circunstancias e as suas potencialidades.


O jumento serviu de montaria para a mãe santíssima e nosso senhor Jesus Cristo. Para evitar qualquer desembesto, São José segue na frente puxando o jumento pelo cabresto. De repente um choro: é o menino Jesus fazendo pipi. No lugar por onde escorreu a urina santa ficou a marca de uma cruz no pescoço do jumento. Por isso, o jumento é considerado por todo nordestino como um animal sagrado.

As fogos-pagou que de manhã bem cedo cisca no meio do caminho atrás de comida, cuidaram de apagar as pegadas deixadas na areia escaldante do deserto pela família de nosso senhor. O beija-flor que é considerado a “galinha” de nossa senhora ofereceu seu ninho feito de algodão para que o menino Jesus se abrigasse do sol do meio-dia.



E seguindo viagem, à beira de um riacho, onde José e Maria mataram a sede; lavaram os pés e o rosto, além de efetuarem o segundo banho no menino Jesus. As lavanderinhas se aproximaram da família e se prontificaram de lavar as peças de roupas usadas pelo nosso senhor menino. Eis que neste ínterim surge o tamanduá que ali mesmo nas águas claras daquele riacho efetuou o batismo do menino Jesus.



No dia seguinte, sabendo de que as tropas do rei Herodes estavam se aproximando, um casal de pombos voa rápido e informa a Jose e Maria do perigo que os cercam. E sem ter para onde ir, a família se hospedou na casa de joão-de-barro num quarto bem escondido, escapando ilesa a perseguição. O martim-pescador que morava perto dali, trouxe preso no seu bico certeiro uma piaba que serviu de refeição para José e Maria que já estavam famintos. A preguiça que passava o dia todo num galho de árvore se ofereceu como vigia da estrada espiando quem subia ou descia.



Após superar mais esta ameaça por parte das tropas do rei Herodes, a Sagrada Família pode enfim seguir viagem. E, no dia seguinte já quase que chegando na fronteira com o Egito, se depara com um lavrador que estava semeando à terra. Nossa Senhora quis saber o que o lavrador estava plantando e este respondeu:

- Estou plantando arroz.!

Nossa Senhora observando a sinceridade com a qual o lavrador a respondeu se dirige ao mesmo dizendo:

- Que arroz seja!



Imediatamente as sementes de arroz começaram a se desabrochar, crescerem e brotarerem o cacho. Antes de partir,  nossa senhora pediu ao lavrador que se por acaso lhe aparecessem os soldados à procura de uma mãe com um recém-nascido que este respondesse ao mesmo que tais pessoas passaram sim, mas no dia do plantio do arroz.



No dia seguinte, o lavrador maravilhado com o acontecimento reuniu toda a sua família e deu inicio a colheita do arroz. Eis que de repente surgiu à galope milhares de soldados empunhando lanças nas mãos, um deles, o comandante da cavalaria se aproxima e pergunta:



- Vocês por acaso viram uma senhora montada em um jumento e levando um recém-nascido nos braços?



O lavrador por sua vez respondeu:

Vi sim. Só que eles passaram por aqui quando eu ainda estava plantando este arroz que agora estamos colhendo.



Os soldados, olhando entre si e constatando que se transcorreram meses desta passagem, receberam ordem do seu superior e retornaram. E assim Maria, José e Jesus conseguiram chegar ao Egito sãos e salvos!

Feliz Natal!

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