Pular para o conteúdo principal

O parto e suas costuras, quando se é preciso ser mais do que uma simples aranha tecedeira




Por Gilvaldo Quinzeiro


Nada é tão merecedor de “costuras metafóricas”, quanto o parto de um bebê - este que nasce despido de tudo, exceto, da própria pele que lhe servirá de frágil proteção, a despeito de tudo que já lhe arranha a carne. É aqui, onde “a aranha humana” não só tece toda a teia, como também o corpo desenvolverá os seus tentáculos para além dos seus avessos nas veredas da cultura.

“A mãe de pegação” como era chamada a Parteira, e por ser assim chamada, é indubitavelmente uma das mais importantes destas “costuras”. É dela, talvez, o tecido outro, sem o  qual, todo o alinhavar se tornaria puído.

A Parteira, portanto, não se compara com a figura do médico obstetra dos dias de hoje,  conquanto, este possa (aparentemente)  oferecer mais segurança – aquela (a Parteira) foi de fato, mais do que a mão que desobstruía a passagem no momento em que as outras (mãos) estavam “atadas” – era também e fundamentalmente presença de espírito. Aliás, não é exatamente que nos falta?

Ora, com a “plastificação” da nossa realidade cotidiana, parece-nos, (perigosamente)  que nada mais precisa de costuras, especialmente, como  aqui  está sendo aludida –  a costura  metafórica. E o parto já se faz por “encomenda” com ou sem costura alguma. E o bebê nestas condições, já nasce “bordado”, contudo, do lado avesso (?).

E aqui uma reflexão outra que por isso mesmo mereceria ir mais além: quem vive na labuta do dia a dia de uma sala de aula sabe exatamente, o quão tudo ainda está por parir...

Mas eis então que nos faltam - a Mãe e a Parteira?

Tudo enfim, é dor e choro?

Socorro?




Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A roda grande passando pela pequena

Gilvaldo Quinzeiro


No imaginário caboclo, desde a fundação de Canudos no sertão da Bahia (1893-1897), onde a seca e a fome fizeram da “fé” a enxada que escavava a solidariedade de um povo sem chão, o mito “da roda grande passando por dentro da pequena” foi sem dúvida nenhuma uma das mais engenhosas invenções da saga de Canudos.

A idéia de que uma “ roda grande passará por dentro de uma pequena,” é simplesmente assustadora e instigadora de uma reflexão. Seria esta passagem correspondente ao fim do mundo? Que roda grande é essa? Quem viverá para presenciar tal profecia?

O fato é que ainda hoje este mito sobrevive no imaginário nordestino, sobretudo no meio rural provocando apreensão e “matuteza”. Canudos ainda resistem?

Pois bem, às vésperas das eleições, o cenário montado, onde cabos eleitorais empunhando bandeiras e distribuindo “santinhos” dos candidatos, chamando atenção do povo - é de uma natureza tal que inspiraria um cordelista a escrever versos numa visão apocalíptica adver…

A FILOSOFIA CABOCLA, RISCAR O CHÃO.

Gilvaldo Quinzeiro

O caboclo quando risca o chão está pensando. Aliás, no caboclês ou no nheengatu se diz matutar. Riscar, pois, o chão com a ponta dos dedos, significa manipular com as mãos o abstrato, ou seja, pensar usando a “cabeça dos dedos”, termo bem apropriado para a filosofia cabocla. Diga-se de passagem, que a “filosofia cabocla” é única que tem explicação para tudo, do contrário o que seria o viver destes homens? “Quem não pode com a” rudia não pega no bote” - diz assertiva cabocla.
Besta é quem pensa que matuto não vive de matutar! Aliás, nas condições enfrentadas pelo caboclo, o pensamento que não corresponde à praticidade, é o mesmo que riscar o chão com o dedo para depois ter o risco apagado pelo vento, o que levou em seguida o caboclo a fazer uso de um graveto para, não obstante as intempéries continuar o seu pensar, isto é, riscando o chão.
Riscar o chão com o graveto em substituição aos dedos, não só significou apenas deixar marcas humanas mais pr…

Metáfora da natureza

A natureza....

quando ouvida no mais profundo do nosso silêncio...

nos dá ouvido

nos enraizando os sentidos... que dialoga quando se dá atenção....

nos fazendo ver além... o belo...