Pular para o conteúdo principal

A FILOSOFIA CABOCLA, RISCAR O CHÃO.

                      Gilvaldo Quinzeiro

O caboclo quando risca o chão está pensando. Aliás, no caboclês ou no nheengatu se diz matutar. Riscar, pois, o chão com a ponta dos dedos, significa manipular com as mãos o abstrato, ou seja, pensar usando a “cabeça dos dedos”, termo bem apropriado para a filosofia cabocla. Diga-se de passagem, que a “filosofia cabocla” é única que tem explicação para tudo, do contrário o que seria o viver destes homens? “Quem não pode com a” rudia não pega no bote” - diz assertiva cabocla.

Besta é quem pensa que matuto não vive de matutar! Aliás, nas condições enfrentadas pelo caboclo, o pensamento que não corresponde à praticidade, é o mesmo que riscar o chão com o dedo para depois ter o risco apagado pelo vento, o que levou em seguida o caboclo a fazer uso de um graveto para, não obstante as intempéries continuar o seu pensar, isto é, riscando o chão.

Riscar o chão com o graveto em substituição aos dedos, não só significou apenas deixar marcas humanas mais profundas na imensidão do chão, como também um sinal de desejo em perpetuar o que só em outras regiões, tal como no Egito se conseguiu ao substituir o chão pelas pedras.

“São as pedras que nos ensinam os caminhos!” As marcas indeléveis cravadas nas pedras, desta feita com uso dos dedos banhados em sangue - anunciaram também que pensar é ter poder, e que este assim como as pedras têm que ser perpetuado à todo custo!

Os soberanos mesopotâmicos, astecas e egípcios souberam bem petrificar sua soberania escrevendo leis ou erigindo túmulos e templos em pedras.

Os nossos caboclos, no entanto, mesmo sem edificar nada em pedras, e tendo seus ricos no chão varridos pelo vento, criaram, uma das mais sábias e prósperas das civilizações - a Civilização da Mandioca -extraindo de um veneno em potencial, a mandioca, sua principal fonte de alimento. E na farinhada o conhecimento da “química”, da “física”, tudo isso sem perder de vista a socialização. Isso sem falar nos vários derivados da mandioca, a saber, a farinha de puba, a farinha branca, o grolado, a tapioca, o beiju etc.

Hoje, porém, no tempo em que há manga e caju apodrecendo no chão dos quintais, enquanto os meninos se empanturram de biscoitos recheados, sucos artificiais e enlatados, riscar o chão com o dedo, isto é, pensar significaria no mínimo usar mais a cabeça do que a bunda!

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A roda grande passando pela pequena

Gilvaldo Quinzeiro


No imaginário caboclo, desde a fundação de Canudos no sertão da Bahia (1893-1897), onde a seca e a fome fizeram da “fé” a enxada que escavava a solidariedade de um povo sem chão, o mito “da roda grande passando por dentro da pequena” foi sem dúvida nenhuma uma das mais engenhosas invenções da saga de Canudos.

A idéia de que uma “ roda grande passará por dentro de uma pequena,” é simplesmente assustadora e instigadora de uma reflexão. Seria esta passagem correspondente ao fim do mundo? Que roda grande é essa? Quem viverá para presenciar tal profecia?

O fato é que ainda hoje este mito sobrevive no imaginário nordestino, sobretudo no meio rural provocando apreensão e “matuteza”. Canudos ainda resistem?

Pois bem, às vésperas das eleições, o cenário montado, onde cabos eleitorais empunhando bandeiras e distribuindo “santinhos” dos candidatos, chamando atenção do povo - é de uma natureza tal que inspiraria um cordelista a escrever versos numa visão apocalíptica adver…

Medicina cabocla

Gilvaldo Quinzeiro





Coceira nenhuma é igual a do “gugumim”, pra esta não tem água morna, quente ou fria: só o gargarejo de “malva do reino”!


Noite adentro, quando se escutava o pilãozinho sendo socado, era menino precisando passar por alguma esfregação, seja com azeite de mamona ensopado num algodão, seja com um dente de alho esquentado nas chamas de uma lamparina!


Nos casos mais graves de dor de barriga, se recorria ao sarro de cachimbo passado em cruz. E ai do menino metido à besta que se recusasse tal procedimento da medicina cabocla  – o cinturão estava já bem às vistas!...

O máximo que se poderia dizer era: mamãe!...