Pular para o conteúdo principal

Que parafuso, se nas coisas de hoje, nem as alavancas! Uma breve reflexão sobre a mecânica do tempo neste primeiro Dia do Ano.


Por Gilvaldo Quinzeiro

“A roda grande passando por dentro da pequena”. Um dia como hoje, o primeiro do ano, é preciso refletir sobre a mecânica e as engrenagens do tempo. Que tempo é este onde  não se precisa mais da “alavanca”, pois, não é o mundo que se quer erguer, mas as opiniões sobre ele, uma vez que, a velocidade com que este se desfaz, já não é mais da ordem daquilo que se pode mover – tudo enfim  é da condição de sua poeira?

O dito acima certamente contrariaria Arquimedes. E a sua alavanca, seria substituída por algum objeto ótico, pois,  do contrário, o que conseguiria este erguer com a natureza “porosa” das coisas?

Mas, voltando a falar sobre “a roda grande passando por dentro da pequena”.  Esta é visão futurista do caboclo sobre o tempo. Talvez, o tempo de agora, onde ninguém se dá conta dos seus parafusos ou se estes pras coisas de hoje, são obsoletos! Aliás, um dia como hoje, o caboclo não o amanheceria sem antes interpretar a mecânica celeste – é de lá onde se ver ajustar todas as rodas, inclusive, aquelas que precisam ser trocadas por outras!

Em outras palavras, uma coisa no lugar da outra; quando aquela não pode permanecer a mesma coisa, senão a outra que a rigor a repete. De fato, nestas condições, não se pode meter a alavanca,  só as opiniões. E neste momento o que estou fazendo: estraçalhando a minha! Poderia ser a minha mão...

A propósito, se já não precisamos mais de alavanca; e nem sabemos em que coisas se usam mais  o parafuso , e nem o mundo é da ordem daquilo que se ergue, então para que nos servem as mãos?

 

 

 

 

 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A roda grande passando pela pequena

Gilvaldo Quinzeiro


No imaginário caboclo, desde a fundação de Canudos no sertão da Bahia (1893-1897), onde a seca e a fome fizeram da “fé” a enxada que escavava a solidariedade de um povo sem chão, o mito “da roda grande passando por dentro da pequena” foi sem dúvida nenhuma uma das mais engenhosas invenções da saga de Canudos.

A idéia de que uma “ roda grande passará por dentro de uma pequena,” é simplesmente assustadora e instigadora de uma reflexão. Seria esta passagem correspondente ao fim do mundo? Que roda grande é essa? Quem viverá para presenciar tal profecia?

O fato é que ainda hoje este mito sobrevive no imaginário nordestino, sobretudo no meio rural provocando apreensão e “matuteza”. Canudos ainda resistem?

Pois bem, às vésperas das eleições, o cenário montado, onde cabos eleitorais empunhando bandeiras e distribuindo “santinhos” dos candidatos, chamando atenção do povo - é de uma natureza tal que inspiraria um cordelista a escrever versos numa visão apocalíptica adver…

A FILOSOFIA CABOCLA, RISCAR O CHÃO.

Gilvaldo Quinzeiro

O caboclo quando risca o chão está pensando. Aliás, no caboclês ou no nheengatu se diz matutar. Riscar, pois, o chão com a ponta dos dedos, significa manipular com as mãos o abstrato, ou seja, pensar usando a “cabeça dos dedos”, termo bem apropriado para a filosofia cabocla. Diga-se de passagem, que a “filosofia cabocla” é única que tem explicação para tudo, do contrário o que seria o viver destes homens? “Quem não pode com a” rudia não pega no bote” - diz assertiva cabocla.
Besta é quem pensa que matuto não vive de matutar! Aliás, nas condições enfrentadas pelo caboclo, o pensamento que não corresponde à praticidade, é o mesmo que riscar o chão com o dedo para depois ter o risco apagado pelo vento, o que levou em seguida o caboclo a fazer uso de um graveto para, não obstante as intempéries continuar o seu pensar, isto é, riscando o chão.
Riscar o chão com o graveto em substituição aos dedos, não só significou apenas deixar marcas humanas mais pr…

Medicina cabocla

Gilvaldo Quinzeiro





Coceira nenhuma é igual a do “gugumim”, pra esta não tem água morna, quente ou fria: só o gargarejo de “malva do reino”!


Noite adentro, quando se escutava o pilãozinho sendo socado, era menino precisando passar por alguma esfregação, seja com azeite de mamona ensopado num algodão, seja com um dente de alho esquentado nas chamas de uma lamparina!


Nos casos mais graves de dor de barriga, se recorria ao sarro de cachimbo passado em cruz. E ai do menino metido à besta que se recusasse tal procedimento da medicina cabocla  – o cinturão estava já bem às vistas!...

O máximo que se poderia dizer era: mamãe!...